Limanature Julho de 2023

Naturismo e Espiritualidade 2 – 2023 | Alma Naturista

Naturismo e Espiritualidade 2

Na rubrica Naturismo e Espiritualidade uma pergunta. Que relação podemos ver então entre o “cinismo” e o “naturismo”?

A ESCOLA CÍNICA GREGA E O NATURISMO

1. Surgiu na Antiguidade grega, por volta do século IV antes da nossa era, um interessante movimento de ideias e de práticas conhecidas com o nome de “cinismo”, que perdurou durante alguns séculos mais. (Atenção! Este nome nada tem a  ver com a atual definição de cinismo no nosso dicionário, como próprio de alguém “sem escrúpulos, sem princípios, que só crê no poder da força, do dinheiro e do Poder em geral”). Uma das tradições (entre outras hipóteses possíveis) diz que se chamavam-se assim porque se reuniam no Ginásio do “Cão” (κύων, kyôn, em grego), que levava o nome de Cynosarges, movimento que foi iniciado por Antístenes, discípulo de Sócrates, que ensinava nesse lugar[1]. Com o tempo, eles acharam piada à sua identificação com os cães e diziam:

“Há quatro razões de por que os “cínicos” são assim chamados. Primeiro por causa da indiferença de seu modo de vida, pois fazem um culto à indiferença e, assim como os cães, comem e fazem amor em público, andam descalços e dormem em barris nas encruzilhadas. A segunda razão é que o cão é um animal sem pudor, e os cínicos fazem um culto á falta de pudor, não como sendo falta de modéstia, mas como sendo superior a ela. A terceira razão é que o cão é um bom guarda e eles guardam os princípios de sua filosofia. A quarta razão é que o cão é um animal exigente que pode distinguir entre os seus amigos e inimigos. Portanto, eles reconhecem como amigos aqueles que são adequados à filosofia, e os recebem gentilmente, enquanto os inaptos são afugentados por ele, como os cães fazem, ladrando contra eles”.

Muito provavelmente, as décadas finais do século IV a.e.c. na Grécia, especialmente em Atenas, acabaram por ser uma etapa de certa crise social, política e cultural e de levar a questionamentos existenciais,  especialmente individuais. Por isso se desenvolveram pensamentos com grande carga ética e vivencial, procurando responder não tanto a questões especulativas, mas no sentido de uma filosofia de viver, um estilo e modo de viver. A Filosofia fez-de assim muito prática e vital.

Naturismo e Espiritualidade
Naturismo e Espiritualidade

2. Os cínicos eram muito críticos da cultura grega e das suas leis, convenções sociais e costumes (nomos). Para eles, a cultura dos livros era algo superficial, artificial e anti-natural (algo parecido ao que os taoistas chineses defendiam frente aos confucianos). O que faria sentido para o ser humano seria viver de acordo com a Natureza (foram dos primeiros ecologistas e naturalistas!). Havia que aprender da Natureza (physis), especialmente dos animais, e viver de acordo com ela. Isso era viver segundo a ordem natural devida. Aliás, nós mesmos somos a Natureza, não algo diferente e aparte dela.

Por isso, procuravam viver uma vida simples, muito simples mesmo (Diógenes de Sínope, o mais famoso filósofo cínico, vivia numa barrica, só com um manto: quando um dia viu uma criança a beber água com a concha das mãos, lançou fora de si o copo com que andava, dizendo: “Uma coisa menos de que preciso!”). Procuravam viver a autarquia (uma vida auto-suficiente, com as mínimas dependências externas). Para os filósofos cínicos, o rico não é aquele que acumulava muitas coisas, mas aquele que de menos precisava. O desapego converteu-se num modo de vida habitual neles. Houve até alguém bastante rico, Crates de Tebas, que doou as suas riquezas e passou a viver com um mendigo, de maneira sempre livre. Vivia com uma mulher, Hipárquia, também do movimento cínico, a primeira filósofa de que temos constância. Foram pobres, vivendo de maneira filosófica, livres e desapegados[2].

E com ataraxia, imperturbabilidade, serenidade de mente e de emoções perante a vida e os seus dinamismos cambiantes.

3. Tratava-se então de viver de maneira livre, de acordo com a ordem da Natureza. Alguns deles também experimentaram a nudez, pelo menos de maneira provisória, chocando a sociedade de seu tempo. Pretendia-se viver no quotidiano, no dia-a-dia, no Presente, sem ser condicionados nem pelo passado nem pelo futuro.

Conta-se que uma vez (pode ser que seja uma lenda, mas uma lenda que faz sentido) o Imperador Alexandre Magno passou pela região onde vivia o Diógenes, em Corinto. Diógenes tinha já fama de sábio e o Imperador quis aconselhar-se com ele. Apresentou-se diante dele e ficou surpreendido porque este não o reverenciava como Imperador que era. Diógenes continuou deitado tranquilamente na praia. E dizia para o seu cão: “Olha este idiota, pensa que eu não sei quem ele é!”. O Imperador, que estava a tencionar partir para o Oriente para construir um grande Império, pediu-lhe conselho e o Diógenes disse-lha simplesmente: “Não sejas louco. O mundo é muito grande,  pretender conquistá-lo levará muito tempo e a tua vida não bastará para isso”. De facto, Alexandre morreu jovem. Apesar de tudo, Alexandre não seguiu o conselho de Diógenes. Porém, quis recompensá-lo e disse-lhe que lhe pedisse o que quisesse. Diógenes limitou-se a dizer: “Não me tires o que não me podes dar”. Ou seja, “Tira-te da minha frente, porque estás a impedir-me de apanhar o meu sol”. Duas filosofias opostas: a de quem quer conquistar o mundo (exterior) e a de quem pretende unicamente conquistar-se a si próprio (interior)…

4. Que relação podemos ver então entre o “cinismo” e o “naturismo”?

Sem dúvida, ambos são uns enamorados da Natureza e querem aprender com ela e experimentá-la no dia a dia. Experimentar não ter roupa exterior é também uma maneira de se despojar-nos do que não nos é essencial. Mas é preciso também um despojamento interior. Despojar-se do ego, de tudo aquilo acidental que não nos define, que não nos realiza. que não se refere ao nosso “verdadeiro eu” (títulos, poder, classe social, fama, dinheiro, género, etnia…). Pelo contrário, que até o atrapalham. É a nossa prisão interior.

Nesta sociedade do consumismo e individualismo desenfrado, que busca sobretudo o lucro (individual) à custa dos valores humanos, a revolução naturista de despojar-se da roupa, além do sentimento de liberdade que dá, é também uma metáfora daquele despojamento mais profundo que nos leva a uma liberdade mais profunda, aquela que nos liberta de todas as nossas prisões, que construimos sistematicamente cada dia.

Talvez, com menos cadeias exteriores e interiores, podemos viver melhor essa ataraxia, essa serenidade perante os embates da vida, com os seus altos e baixos, com sabedoria e alegria interior. Uma revolução interior, que começa já, aqui-e-agora. E que terá que vir também para fora…

Rui Grácio

26.09.23.

Naturismo e Espiritualidade
Naturismo e Espiritualidade

[1] Era este um ginásio e um templo para os nothoi. É esta uma aplavra que designa aqueles que não possuem a cidadania ateniense, por terem nascido de uma escrava, estrangeira, prostituta, de pais cidadãos mas não legalmente casados ou também bastardes de mulheres hilotas (os hilotas era servos propriedade do Estado,  pessoas da mais baixa condição social).

[2] Hipárquia de Maroneia foi realmente uma filósofa notável pelo seu compromisso vital com o cinismo. Diz-se que consumou o seu matrimónio com Crates em público, praticando a anaideia, a falta de vergonha. Praticando a igualdade dos sexos e o amor livre, incluenciou Zenão de Cítio o fundador do estocismo, que defendia também o exercício e treino público conjunto entre homens e mulheres.

Podes saber mais sobre Cinismo na wikipédia

Podes ler o artigo anterior sobre Naturismo e Espiritualidade publicado no blog.



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