Naturismo e Espiritualidade
“Com a prática do naturismo, de maneira espiritual, somos convocados a sermos autênticos, realistas, livres dos nossos egos e apegos e, sobretudo, livres.”
Muita gente poderia escandalizar-se com este título, mas vou tentar mostrar como podem ser – e, de facto, o são! – dois aspetos complementares da atividade humana.
Em primeiro lugar, ponhamo-nos de acordo nas definições de um e do outro termo.
O que se entende por Naturismo? Ora bem, tem sido clássico diferenciar naturismo de nudismo. O nudismo é uma postura ou atitude mais pessoal, individual, de alguém que incorpora a nudez no seu plano de vida. O naturismo, pela sua parte, destaca mais o aspeto social, ou seja, partilhar em comum com outros a nudez, no meio da Natureza. Não tira a parte individual, mas quer praticar isto de uma maneira comunitária ou social.

Por sua parte, a Espiritualidade diferencia-se da Religião. Não é exatamente a mesma coisa, tal como hoje se entende. A não ser que se percecione religião como “re-ligare” (re-unir, re-unificar, voltar a ligar o que estava antes des-unido, des-ligado). A Espiritualidade tem a ver mais com uma experiência pessoal íntima (ainda que pode ser também comunitária, mas sem grandes institucionalizações, isto é, numa micro-institucionalização). A religião, as religiões históricas, são a institucionalização ampla, da Espiritualidade, e, portanto o seu aspeto mais social. Integra templos, mediadores entre a Divindade e a pessoa comum, estruturas materiais e culturais, finanças, dogmas ou princípios teológico-filosóficos, formulações éticas, liturgias, etc.
Portanto, não são necessariamente a mesma coisa. Podem interseccionar-se. Ou não. Uma pessoa espiritual pode ter também uma religião histórica determinada, ou pode ser sem nenhuma religião. Até um/a ateu/ateia e um/a agnóstico podem ter uma espiritualidade e não uma religião!
Porque alguém pode não ser crente e ter uma espiritualidade de vida, uma atitude mental e emotiva perante a vida, com Sentido. Alguém espiritual é alguém que vive uma vida, a sua própria, com Sentido. É alguém que procura mais o Ser do que o Ter, utilizando o conhecido esquema de Erich Fromm.
Postas assim as coisas, o que é tem que ver a Espiritualidade com o Naturismo, ou o Naturismo com a Espiritualidade?
A questão estaria no fazer uma interpretação espiritual do ser naturistas. Ou viver espiritualmente o naturismo. Ou incluir o naturismo numa maneira espiritual de viver a Vida. Que quero dizer com isto? Vejamos

Há, na tradição indiana e hindu, a religião dos jainas (uma das mais ascéticas do mundo), e dentro deles, há uma tendência chamada digambaras (literalmente, em sânscrito, “vestidos com o Céu”), que andam totalmente nus por convicções religiosas. E espirituais[1]. Para eles (só eles, pois não é permitido às mulheres fazer isto) este ato de viver permanentemente sem roupa é uma prova ou uma consequência do seu despojamento total. Nem sequer têm algo que as nossas tradições culturais e sociais correntes pensam que é um direito do ser humano, o direito à sua intimidade (visual).
Mas o olhar espiritual sobre a realidade das coisas é diferente. A capacidade de renúncia (considerado na Índia um grande valor ascético) é um valor intrínseco para quem entra na senda espiritual. Não é necessário viver o nudismo religioso desta maneira (outra rama do jainismo não o faz), mas é considerado que quem o pratica tem um alto grau de renúncia ao ego. Porque renúncia ao ego é o caminho espiritual. De tal maneira que o nosso avanço espiritual pode “medir-se” pela nossa atitude/prática de renúncia ao ego. Quanto menos ego, mais crescimento espiritual mostramos.
No nosso naturismo ocidental possivelmente não temos estas motivações espirituais. Alguém tira a roupa por diversas razões, mas se há algo em comum no naturismo ocidental poderia ser talvez a ideia de liberdade. Liberdade do convencionalismo têxtil, da hipocrisia social, do ditado das aparências. Por isso, dentro de um ponto de vista espiritual, o tirar a roupa é indicador de não querermos esconder-nos, de não taparmos o que somos, começando pelo corpo. Aqui, no Ocidente, supõe termos autoconfiança no nosso corpo.

Com perspetiva de género, supõe-se que, no caso das mulheres, praticando o naturismo, superam assim esse totalitarismo da sociedade patriarcal com respeito ao corpo feminino e as suas imposições. Significa uma libertação dos esquemas patriarcais no concreto. A tirania social-cultural sobre o corpo da mulher é tremendo e no fundo apontariam a que a mulher deveria ter um “corpo perfeito”.
Mas o que significa “ter um corpo perfeito”? É só uma visão parcializada, enviesada, determinada pelas regras sociais de uma determinada sociedade. É uma construção mental, seguindo aqui interessantes dicas de Michel Foucault. Noutras, os critérios são diferentes e culturas diferentes definem de maneiras diversas o que são os “corpos perfeitos”. Ou sejam, impõem critérios de controlo sobre o corpo. Porém, sendo naturistas, deixamos essas opressões patriarcais. É como deixar cair os tabus sociais.

(Esta análise não é só sobre o corpo feminino. Também os corpos masculinos são “normativizados”, se bem que de maneira diferente).
Concluindo: com a prática do naturismo, de maneira espiritual, somos convocados a sermos autênticos, realistas, livres dos nossos egos e apegos e, sobretudo, livres.
O problema é que há muita classe de apegos: os mais comuns têm sido, historicamente, o apego ao Sexo, ao Dinheiro, ao Poder e à Fama e ao Êxito, a todos estes absolutos ou ídolos. Mas podemos não ter estes apegos e ter outros (a outras pessoas, isto é, dependência pessoal, a recordações, a emoções próprias, às próprias ideias e metodologia de fazer as coisas, etc.). Cada um/a tem que descobrir os seus. Identificando-os é uma grande prova de que se procura a verdade das coisas, “as coisas tal como elas são”… não como desejaríamos que fossem, como nos ensina o Budismo e muitos místicas das mais diversas tradições.
Aceitar e reconhecer os apegos próprios é uma grande avance espiritual. Porque nos permite trabalhar sobre eles e ser mais livres. Sermos nós mesmos. E é assim também como poderemos ajudar mais e melhor os outros: com o nosso exemplo quotidiano, vivendo no aqui-e-agora, atentos e livres. Isto, o caminho da libertação, treina-se. O da escravidão também!

Fico por aqui. Ainda há mais coisas interessantes que se poderiam pesquisar sobre esta intersecção entre Naturismo e Espiritualidade. Mas fica para outra vez!
Namasté!
Rui Gracio
25.07.23.
[1] Quando vivi na India cheguei a ver algum destes digambaras. Os naga-yogis também andam nus.
Agradecimento
Um excelente trabalho publicado neste artigo da autoria do RG, contribuindo com as suas palavras para a divulgação do Naturismo em Portugal.
Uma abordagem mais espiritual, mais filosófica do naturismo, onde a importância do peso do ego e do tabu mostram o caminho a percorrer para alcançar a liberdade individual em cada um de nós.
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